Comunicados Zapatistas

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UMA HISTÓRIA PARA TRATAR DE ENTENDER

17 de novembro de 2016.

À Sexta nacional e internacional:

A quem simpatiza e apoia a luta dos povos originários:

A quem é anticapitalista:

Companheiras, companheiros, companheiroas:

Irmãs e irmãos:

Fizemos este extenso texto conjuntamente com o Subcomandante Insurgente Moisés, porta voz e atual chefe do EZLN, e consultando alguns detalhes com algumas das Comandantas e Comandantes da delegação zapatista que participaram da primeira etapa do V congresso do Congresso Nacional Indígena.

Embora nesta, como em outras ocasiões, coube a mim a elaboração, é o Subcomandante Insurgente Moisés quem lê, agrega ou tira, aprova ou rejeita não só este texto, mas todos os que aparecem à luz pública como autênticos do EZLN. Não poucas vezes, ao longo destes escritos, usarei o primeiro pronome do singular. A razão disto se entenderá mais adiante. Embora o destino principal destas linhas seja a Sexta, decidimos ampliar seu destino a quem, sem ser nem estar conosco, tem idênticas inquietudes e parecido empenho. Portanto:

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TAMPOUCO NOSSOS PESADELOS

Há alguns anos, a criatividade e a inteligência de algum coletivo da Sexta produziu uma frase que, com o passar do tempo, foi atribuída ao zapatismo. Bem sabem que somos contra o copyright, mas não costumamos atribuir-nos nem palavras nem ações que não são nossas. No entanto, embora não seja de nossa autoria, a frase sim reflete em parte nosso sentir como zapatistas que somos.

Erguida pela Sexta contra quem, com chantagens grosseiras e ameaças, atacava (como agora) ao ceticismo frente ao “poder” das urnas eleitorais institucionais, a frase vai mais além e define os limites e carências de uma forma de luta, a eleitoral:

“Nossos sonhos não cabem em suas urnas”, se dizia e se diz.

Nós, como zapatistas que somos, a ratificamos na época… e agora. Tem a virtude de dizer muito com poucas palavras (uma arte agora esquecida). Mas, desde este lado do pasamontanha, desde nosso ser que somos, acrescentamos: “tampouco nossos pesadelos”.

Por certo, podíamos ter posto “e tampouco noss@s mort@s”, mas resulta que, nestes tempos fatídicos, a dor se estendeu ainda mais. Já não é apenas a morte natural a responsável por nos afastar de quem nos faz falta hoje; como, em nosso caso, o subtenente insurgente de infantaria Hernán-Omar (parte de nós desde antes do levante e arrebatado pelo câncer ao nosso lado e do de sua companheira e filho – aos quais abraçamos especialmente neste primeiro aniversário sem ele-).

Agora são, e de forma crescente, os assassinatos, as desaparições, as prisões, os sequestros.

Se você é pobre é vulnerável, se vocês é mulher é ainda mais vulnerável. Como se o sistema não se conformasse em agredi-la pelo que é e ainda se dá a macabra tarefa de eliminá-la. Quer dizer, já não é apenas objeto de perseguição e violência sexual. O que aconteceu com esse sistema que torna “natural” e até “lógico” (“sim, elas pediram por isso”, diz a sociedade inteira) já não apenas o estupro, também o sequestro, o desaparecimento e o assassinato de mulheres? Sim, mulheres. A democratização do ódio de gênero iguala idades, raças, cores, estaturas, pesos, credos, ideologias, militâncias ou não; todas as diferenças, menos as de classe, diluídas em uma diminuição maior: ser mulher.

E vai você agregando potências segundo sua diferença: cor, estatura, peso, indígena, afrodescendente, menina, menino, anciã, ancião, jovem, gay, lésbica, transgênero, seu modo pessoal de ser, qualquer que seja. Sim, um sistema empenhado já não apenas em segregar e depreciar as diferenças, agora decidido a eliminá-las por completo. E não apenas exterminá-las, agora fazendo-o com toda a crueldade que uma modernidade é capaz. Segue a morte matando, mas agora com maior sadismo.

Então, o que queremos dizer é que não apenas nos faltam as mortas e os mortos, também @s desaparecid@s (e com o arroba incluímos não só o masculino e o feminino, também a tudo que excede a falsa dicotomia de gênero), @s sequestrad@s, @s encarcerad@s.

Quantos dos desaparecidos de Ayotzinapa cabem em quantas urnas? Em que projeto partidário se encontram?

Qual logotipo institucional é o que se usa pensando em quem nos falta?

E se nem sequer temos a certeza de que morreram? E se não é só a ausência a que dói, mas também se agregam a incerteza e a angústia (comeu?, tem frio?, ficou doente?, tem dormido o suficiente?, alguém o consola?, sabe que ainda te busco, que sempre te buscarei?)?

Em qual aspiração a um cargo, um posto, um governo, cabem as mulheres agredidas, desaparecidas, assassinadas por todo o espectro ideológico?

Quantas cédulas eleitorais equivalem às crianças assassinadas pelo Partido Ação Nacional na creche ABC?

Por quem votam os exterminados, pelo Partido Revolucionário Institucional e suas réplicas mal disfarçadas, em toda a extensão das geografias e calendários do México dos de baixo?

Em qual contagem de votos aparecem os perseguidos pelo Partido da Revolução Democrática, acusados do delito de serem jovens?

Em qual partido político se representam as diferencias sexuais perseguidas em público e em privado, para as que são condenadas ao inferno em vida e na morte?

Quais são os partidos políticos institucionais cujos logotipos e slogans mancham os muros que devem pular milhares de migrantes, homens, mulheres e crianças para cair em mãos de governantes-criminosos-empresários do tráfico de pessoas?

E poderão encontrar exemplos em crônicas, blogs, reportagens, notas jornalísticas, artigos de opinião, hashtags, etc., mas sempre terá a certeza de que existem muitos mais atos criminosos que não alcançam sequer uma menção pública.

Onde está a zona eleitoral para que aí se expresse a exploração, a repressão, a desapropriação e a depreciação aos povos originários?

Em qual urna se depositam as dores e as raivas dos…

Yaqui,
Kumiai,

Mayo,

Cucapá,

Tohono O´odham,

Raramuri,

Kikapú,

Pame,

Totonaca,

Popoluca,

Nahua,

Maya Peninsular,

Binizáa,

Mixteco,

Hñähñü,

Totonaca,

Mazateco,

Purépecha,

Mixe,

Chinanteco,

Mazahua,

Me´phaa,

Téenek,

Rarámuri,

Chontal,

Amuzgo,

Ópata,

Solteco,

Chatino,

Papabuco,

Triqui,

Cora,

Cuicateco,

Mame,
Huave,

Tepehuano,

Matlatzinca,

Chichimeca,

Guarijío,

Chuj,

Jacalteco,

Lacandón,

Comca´ac,

Wixárika,

Kanjobal,

Chontal,

Chocho,

Tacuate,

Ocuilteco,

Kekchí,

Ixcateco,

Motocintleco,

Quiché,

Kakchiquel,

Paipai,

Pápago,

Cochimí,

Ixil,

Kiliwa,

Aguacateco,

Mame,

Chol,

Tzotzil,

Zoque,

Tojolabal,

Tzeltal?

Aonde cabe tudo isso?

E quando a ditadura do terror e sua lógica perversa obtiveram seu registro legal, invadindo tudo e reajustando os critérios?

Tive sorte, disse qualquer mulher ou homem assaltado na rua, em sua casa, no trabalho, no transporte, não me esfaquearam nem atiraram em mim.

Tive sorte, disse a mulher agredida e estuprada, não me sequestraram.

Tive sorte, disse a criança submetida à prostituição, não me queimaram viva.

Tive sorte, disse o gay, a lésbica, a/o transexual, oa outroa com os ossos quebrados e a pele lacerada, não me assassinaram.

Tive sorte, disse o obreiro, a empregada, o trabalhador submetido a mais horas de trabalho e menor salário, não me despediram.

Tive sorte, disse o líder social torturado, não me desapareceram.

Tive sorte, disse o jovem estudante assassinado e jogado na rua, minha família já não terá que me procurar.

Tive sorte, disse o povo originário desapropriado, não me exterminaram.

E mais:

Que pesquisa eleitoral toma nota da destruição da Terra? Por quem votam as águas contaminadas, as espécies animais encurraladas até a extinção, a terra estéril, o ar sujo? Aonde se deposita a cédula de um mundo agonizante?

Então tem razão: “nossos sonhos não cabem em suas urnas”.

Mas tampouco nossos pesadelos.

Cada qual pode ser responsável por seus sonhos. Falta chamar o responsável por nossos pesadelos a prestar contas. Falta o que falta…

UM “SIM”, VÁRIOS “NÃO”.

Sim, a proposta inicial e original é nossa, do ezetaelene. Nós a apresentamos às delegadas e delegados no Quinto Congresso do Congresso Nacional Indígena. Isto ocorreu nos dias 9, 10, 11 e 13 de outubro do ano de 2016, na sede do CIDECI-Unitierra, em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Nestas datas, haviam delegadas e delegados de coletivos, organizações, bairros, tribos, nações e povos originários das línguas amuzgo, binni-zaá, chinanteco, chol, coca, náyeri, cuicateco, kumiai, lacandón, matlazinca, maya, mayo, mazahua, mazateco, mixe, mixteco, nahua, ñahñu, ñathô, popoluca, purépecha, rarámuri, tlapaneco, tojolabal, totonaco, triqui, tzeltal, tzotzil, wixárika, yaqui, zoque, e chontal. No dia 13 de outubro de 2016, a plenária desse Quinto congresso do CNI decidiu fazer sua a proposta e submetê-la a uma consulta entre quem o integra. No dia 14 de outubro de 2016 pela manhã, o CNI e o EZLN fizeram pública essa decisão no documento chamado “Que retiemble en sus centros la tierra”( Que estremeça em seus centros a terra) .

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Não, nem o EZLN como organização, nem nenhuma, nenhum de seus integrantes, vai concorrer a um “cargo de eleição popular” no processo eleitoral de 2018.

Não, o EZLN não vai se converter em um partido político.

Não, o EZLN não vai apresentar uma mulher indígena zapatista como candidata à presidência da República no ano de 2018.

Não, o EZLN não “deu uma guinada” naquilo que é, nem seguirá sua luta pela via eleitoral institucional.

Então, o EZLN não vai candidatar uma indígena zapatista para presidenta da República? Não vão participar diretamente das eleições de 2018?

Não.

Por que não? Pelas armas?

Não. Se equivoca profundamente quem pensa que é por isso: as zapatistas, os zapatistas tomamos as armas para servir-nos delas, não para sermos escravizados por elas.

Então é porque o sistema político eleitoral institucional é corrupto, inequitativo, fraudulento e ilegítimo?

Não. Mesmo que fosse transparente, equitativo, justo e legítimo, as zapatistas, os zapatistas não participaríamos para alcançar e exercer o Poder desde um posto, um cargo ou uma nomeação institucional.

Mas, em determinadas circunstâncias, por questões estratégicas e/ou táticas, não participariam diretamente para exercer um cargo?

Não. Mesmo que “as massas” nos demandem; mesmo que a “conjuntura histórica” necessite de nossa “participação”; ainda que “a Patria”, “a Nação”, “o Povo”, “o Proletariado” (ok, isso já está muito demodé) o exijam, ou qualquer que seja o conceito concreto ou abstrato (por trás dos quais se esconde, ou não, a ambição pessoal, familiar, de grupo ou de classe) que se elabore como pretexto; mesmo que a conjuntura, a confluência dos astros, as profecias, os índices da bolsa, o manual de materialismo histórico, o Popol Vuh¹, as pesquisas, o esoterismo, “a análise concreta da realidade concreta”, o etcétera conveniente.

Por que?

Porque o EZLN não luta para tomar o Poder.

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Vocês acham que não já nos ofereceram isso e mais? Que não nos ofereceram cargos, favores, postos, embaixadas, consulados, viagens ao estrangeiro com “tudo incluído”, além dos pressupostos que vem juntos? Acham que não nos ofereceram que nos convertêssemos em um partido político institucional, ou que ingressássemos a algum dos já existentes, ou aos que se formariam, e “gozar das prerrogativas de lei” (assim dizem)?

Aceitamos? Não.

E não nos ofendemos, entendemos que a ambição, ou a falta de imaginação, ou a falta de visão, ou a ausência de conhecimentos (e, claro, o não saber ler), levem mais de um a correr para entrar em um partido político institucional, logo sair e passar para outro, logo sair e formar outro, logo e assim segue. Entendemos que, para mais de um ou uma, ainda funcione a desculpa de “mudar o sistema por dentro”. A nós, não.

Mas, no caso da direção e da tropa zapatista, não é só contra o Poder institucional nossa negativa, mas também o que se confronta às formas e processos autonômicos que as comunidades criam e aprofundam dia a dia.

Por exemplo: nenhum insurgente ou insurgenta, seja da comandância ou seja da tropa; nem nenhuma comandanta ou comandante do CCRI (Comitê Clandestino Revolucionário Indígena) podem sequer ser autoridades nas comunidades, nem nos municípios autônomos, nem nas diferentes instâncias organizativas autônomas. Não podem ser conselheiras nem conselheiros autônomos, nem das juntas de bom governo, nem de comissões, nem nenhuma das responsabilidades que são designadas por assembleia, criadas ou a serem criadas, na construção de nossa autonomia, ou seja, de nossa liberdade.

Nosso trabalho, nossa tarefa como ezetaelene é servir às nossas comunidades, acompanhá-las, apoiá-las, não mandar nelas. Apoiá-las, sim. Às vezes temos sucesso. E sim, certo, às vezes atrapalhamos, mas então são os povos zapatistas quem nos dão uma chamada (ou várias, dependendo) para que corrijamos.

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Tudo isto não precisaria ser esclarecido e reafirmado se tivesse sido feita uma leitura atenta do texto intitulado “Que estremeça em seus centros a terra”, feito público na manhã de 14 de outubro de 2016.

Não, não participamos na redação do comunicado. O texto foi feito pela comissão provisória nomeada pela assembleia do CNI e nos mostrado. Não colocamos nem tiramos nenhuma vírgula, nem um ponto. Assim, o fizemos nosso, tal e como o escreveram as delegadas e delegados do CNI.

Mas, como se vê, o analfabetismo funcional não reconhece fronteiras ideológicas nem siglas partidárias, pois de todo o espectro político tem surgido algumas expressões, comentários e opiniões que se debatem entre o racismo e a estupidez. Sim, temos visto parte da intelectualidade da esquerda institucional, e alguma marginal, coincidir com o paladino panista² “do feminismo”, “da honradez”, “da honestidade”, “da inclusão” e “da tolerância”: Diego Fernández de Cevallos, que agora se dedica, junto à versão esotérica de “A Lei e a Ordem”, Antonio Lozano Gracia, a esconder a ex(?) governadores em fuga. Alguém esqueceu da La Calderona³ aplaudindo freneticamente quando o referido Fernández de Cevallos, sendo candidato presidencial em 1994, chamava as mulheres pelo “carinhoso” nome de “a velharada”, e aos camponeses chamava “os torpes”? La Calderona é o símbolo do empoderamento das mulheres de cima ou uma simples laranja de um psicopata insatisfeito? Ainda engana a alguém ao se apresentar com seu nome de “solteira”?

Como lhes contaremos mais adiante, as delegadas e delegados do CNI no V congresso advertiam que o profundo racismo que existe na sociedade mexicana era um obstáculo para levar adiante a iniciativa.

Nós lhes dissemos que não era só o racismo. Há também, na classe política mexicana, um profundo desprezo. Para ela, os povos originários nem sequer são um estorvo, um móvel velho que tem que ser lançado ao passado adornando-o com citações do Popol Vuh, bordados multicoloridos e bonequinhos de segunda mão. A política dos de cima vê através dos indígenas, como se fossem as contas de vidro esquecidas por algum conquistador, ou os restos anacrônicos de um passado preso em manuscritos, livros e conferências “magistrais”. Para a política institucional, os povos originários não existem, e quando “reaparecem” (assim dizem), então é uma suja manobra de uma mente perversa e toda poderosa. Depois de 524 anos só concebem o indígena como incapaz, tonto, ignorante. Se os originários fazem algo, é porque alguém os manipula; se pensam o que seja, é porque alguém os mal orienta. Para os políticos de cima, de todo o espectro ideológico, sempre haverá “um estranho inimigo” atrás dos povos indígenas.

O mundo da política institucional não é só incrivelmente fechado e compacto, não. Também é onde reina a “popularidade” sobre a racionalidade, a bestialidade sobre a inteligência e a falta de vergonha sobre um mínimo de decência.

Que as mídias pagas falsifiquem a informação para convertê-la em mercadoria, vá lá. De toda forma, de algum modo os repórteres tem que comer e é compreensível que, para eles, venda mais a “matéria jornalística” de que o EZLN vai participar das eleições com uma mulher zapatista; no lugar de dizer a verdade, a saber, que o CNI é quem vai decidir se participa ou não com uma delegada própria, e, se for o caso, contará com o apoio do zapatismo.

Isso é compreensível, a falta de informação é também uma mercadoria. Os repórteres e redatores ganharam o pão de cada dia, ok (sim, de nada colegas, não, não há de que, não, mesmo, dispenso).

Mas que pessoas que se dizem cultas e pensantes, que se supõem que sabem ler e escrever, e tem um mínimo de informação, dão aulas em centros de estudos superiores, são eméritos, cobram sem falta suas bolsas e salários, e viajam vendendo “conhecimento”, não leiam o que o documento “Que retiemble en sus centros la tierra” disse claramente, e digam e escrevam toda classe de bobagens, pois são, como dizer suavemente?… bom, são sem vergonhas e charlatões.

Como que os 140 caracteres e a casa de telhado de vidro dos meios de comunicação, se converteram em um muro que nega a realidade, a expulsa e a declara ilegal. Todo o que não cabe em um tuite não existe, dizem e se conformam. E as mídias pagas o sabem: “não se vai ler com atenção um documento de 6 páginas, assim fazemos um resumo do que for e os “formadores de opinião” nas redes sociais o darão por certo”. Se apresentam assim uma série de barbaridades que, já, precipitam uma histeria de apagamentos que talvez provocará o colapso do imenso reino do passarinho azul.

Quanto será o desprezo que merecem dos povos originários estas pessoas, que nem sequer os concedem a existência. Ainda que o texto diga claramente “uma mulher indígena delegada do CNI”, a magia da estupidez apaga o “do CNI” e o suplanta por “do EZLN”.

Depois? Bom, uma cascata de posicionamentos, comentários, opiniões, críticas, desqualificações, likes e dislikes, polegares para cima e para baixo, e não poucos dedos médios levantados.

Quando alguém, que se deu o trabalho de ler o texto original, timidamente assinala que a possível candidata seria do CNI e não do EZLN e que, logo, o EZLN não é quem participa das eleições, todo mundo cai em cima: “nah, é tudo pura manipulação do cara de trapo4”.

Depois os que reclamaram, quase imediatamente, por que não se “liberava” (sim, assim escreveram) primeiro Chiapas. Claro, como em Chiapas estão os territórios de Yaquis, Kumiai, Rarámuris, Nahuas, Zapotecos, Mixtecos, Chinantecos, Totonacos, Popolucas, Mayas Peninsulares, Wixaritaris, para mencionar alguns. Às primeiras provocações trataram de corrigir e, ao menos, se puseram a consultar no google quem raios eram esses outros indígenas “manipulados pelo cara de meia”, e se deram conta de que não vivem em Chiapas (o que, seja dito de passagem, implicaria que as habilidades manipuladoras do finado excedam as fronteiras “das montanhas do sudeste mexicano”).

Depois de consultar a compas advogados, preguntei ao Subcomandante Insurgente Moisés e não. Não haverá demandas ante a CONAPRED (Comissão Nacional para Prevenir a Discriminação) por violar o artigo primeiro da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos e a Lei Federal para Prevenir e Eliminar a Discriminação, nem ante os tribunais por divulgar informação “inexata ou falsa” que causa “um agravo, seja político, econômico, na honra, vida privada e/ou imagem”.

Não, não sabemos se o Congreso Nacional Indígena (que tem em suas filas não pouc@s especialistas em jurisprudência) procederá às medidas cabíveis.

Tampouco sabemos se @s alun@s, leitor@s, seguidor@s e quem lhes pagam salários e bolsas procederão judicialmente contra eles por fraude (fraude: engano, dar aparência de verdade ao que é mentira), segundo o artigo 386 do Código Penal Federal: “Comete o delito de fraude o que enganando a um, ou aproveitando-se do erro em que este se encontra, faz ilicitamente alguma coisa ou alcança um lucro indevido”.

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No entanto, tem havido, há e haverá dúvidas e questionamentos legítimos e racionais (a imensa maioria proveniente de compas da Sexta, mas não apenas). A essas dúvidas e questionamentos é que, na medida do possível, trataremos de dar resposta neste texto. É certo que nossas palavras não serão suficientes. Todas as críticas, desde todo o espectro político e ideológico, feitas com um mínimo de racionalidade, respeito e com informação verídica, as tomaremos em conta até onde nos diz respeito.

E aqui é necessário deixar algo claro a tod@s: a proposta já não está nas mãos do zapatismo. Desde o 13 de outubro de 2016 a proposta deixou de ser apenas nossa e se tornou conjunta no Quinto Congresso do CNI.

E mais: desde o dia em que se iniciou a consulta do CNI, a aceitação, o rechaço e/ou a modificação da proposta corresponde única e exclusivamente aos coletivos, organizações, bairros, tribos, nações e povos originários organizados no Congresso Nacional Indígena. Já não ao EZLN. O resultado dessa consulta e as decisões conducentes, se houverem, se conhecerão na segunda etapa do Quinto Congresso, nos dias 29, 30 e 31 de dezembro de 2016 e no primeiro de janeiro de 2017, em Chiapas, México. Ou antes, se assim decidir o CNI.

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Claro, você está se preguntando por que fizemos essa proposta, se seguimos pensando como temos dito desde o início de nossa luta e agora o ratificamos. Bom, agora falamos.

Quando o Subcomandante Insurgente Moisés me disse que me cabia explicar isso para a Sexta, lhe preguntei como devia fazê-lo. “Muito simples”, me respondeu, “conte-lhes o que aconteceu”. Assim o farei…

UMA PEQUENA E BREVE GENEALOGIA

Não pudemos precisar a data. Ambos concordamos que seria entre os anos 2013-2014. Embora o finado Supmarcos não fosse um defunto ainda, sua morte já havia sido decidida, o Subcomandante Insurgente Moisés já tinha a chefia do EZLN e as primeiras aparições da Hidra começavam a tornar-se mais claras.

Não sei lá, mas aqui as ideias não surgem em um momento particular, nem tem um autor ou autora precisa. Nascem e logo se vão moldando, às vezes chegam a se converter em uma proposta, depois em uma iniciativa. Outras, as ruins, ficam sendo apenas ideias. Para passar do limite entre ideia e proposta se necessitam meses, anos, às vezes décadas. E, se isso ocorre, basta que a ideia se concretize na palavra de alguém para que comece seu acidentado caminhar.

Tampouco surgiu de uma reunião com essa intenção. Se me perguntarem, direi que começou em uma madrugada de café e tabaco. Analisávamos o que os distintos postos de vigia detectavam e as mudanças profundas que, ainda que iniciadas tempo antes, já se manifestavam nos povos e áreas zapatistas.

Eu digo que a ideia começa a andar pelo Subcomandante Insurgente Moisés. Estou quase seguro de que a mim não havia ocorrido algo tão descabido e absurdo.

Como quer que tenha sido, foi depois que o SubMoy a falou que nos pusemos a pensá-la a sério, com o famoso método zapatista de ir dando voltas e voltas, até chegar aonde queremos, os seja, até “o dia depois”.

Começamos pelo princípio, quer dizer, pelas dificuldades e os obstáculos. Se umas e outras são suficientemente grandes como para que sejam dignas de um desafio, então se passa para a seguinte fase: o que há contra. Depois, e apenas depois, se analisam os prós, o que tem de bom. Ou seja, não se decide até não saber se vale a pena. Ou seja, que primeiro vai o que é, depois tudo o que vai contra e a favor do como, depois onde e quando (o calendário e a geografia), e, já no final do princípio, quem.

Tudo isso não é de uma pessoa, mas vai se abrindo a coletivos cada vez maiores. Aí vai-se “completando” a partir das perguntas, primeiro dos comitês “mais velhos” (nos referimos aos que são mais antigos e conhecem de primeira mão nossa história), depois com os que foram se incorporando ao trabalho de direção organizativa, depois aqueles que já estão como “suplentes” (quer dizer, os que vão substituindo às chefas e chefes), por último, aqueles que estão em formação, @s “candidat@s” (ou seja, os que estão se preparando para fazer o trabalho). Aqui já estou falando de centenas de cabeças, de pensamentos, do ir e vir da palavra, do ouvido; falo de um coração coletivo que vai se ampliando, fazendo-se maior e maior.

O passo seguinte tem a ver com a resposta à pergunta “Quem vai fazê-lo?”. Se corresponde às autoridades autônomas, então a consulta passa a elas; se às comunidades, então se faz uma consulta geral: a todas e todos. Se não toca a nenhuma dessas instâncias, então tem que se perguntar quem vai fazê-lo, às vezes de forma indireta, às vezes diretamente. Se esse “quem” responde afirmativamente, então se consulta com tod@s para definir se será apoiado e como.

Nisso transcorreram 2 ou 3 anos, pelo menos. Ou seja, a ideia ia e vinha, mas sem avançar. Depois, me disseram que fizesse uma investigação com pessoas próximas. O fiz.

Tempo depois, amanhecendo este ano de 2016, o subcomandante insurgente Moisés me chamou e me disse: “Há um trabalho, tenho que falar com você”.

O tom me provocou inquietude: a última vez que o escutei, terminei morto e renascido em uma só jornada, fará pouco mais de dois anos. No entanto, fui para a reunião.

Devia ser dia primeiro de janeiro deste ano de 2016, no 22o aniversário do levante. Não havia nada mais na tenda da Comandância Geral do EZLN que, desde mais de 3 anos, ocupa o SubMoy. O café estava frio, mas havia tabaco suficiente. Ele me explicou mais ou menos, como costuma fazer: como se estivesse pensando em voz alta. Expôs os contras, os prós, e esperou. Entendi que era minha vez. A ideia, como já expliquei, estava há tempo amadurecendo, assim me limitei a citar os contras e adicionar perguntas aos prós. O “quem” nos excedia e tudo o que não tem haver diretamente conosco é um enigma. Quando o SubMoy respondeu a minha pregunta de “quem?”, com um breve “o aniversariante” (quer dizer, o CNI, que faria 20 anos), a insegurança diminuiu: somos conhecidos há duas décadas e o Congresso Nacional Indígena era a iniciativa mais sólida desde que saímos à luz pública: o CNI se manteve, com seus altos e baixos, leal a sua essência e, ainda que deixando sua dor afastada dos meios de comunicação, representava o setor mais agredido pela Hidra. No entanto, tudo isso apenas acrescentou dúvidas.

“Na realidade”, o disse, “não é possível saber o que vai acontecer. Isso vai desatar vários nós e, certo, o que resultará disso é, na melhor das hipóteses, uma incógnita. Não sabemos se o Congresso Nacional Indígena vai aceitar, e muito menos se a Sexta vai entender. E, bom, os outros de lá de cima não pensam, reagem com o fígado, e vão romper coisas que talvez seja impossível reatar. É muito arriscado. Agora mesmo, olhando e analisando o que há fora, te digo que é mais provável que dê errado do que dê certo”.

O SubMoy deixou de lado o copo de café e acendeu um cigarro. “Por isso, aí é onde você entra. Sabe bem que nosso modo é preparar-nos primeiro para que dê errado, recorda como foi o levante e tudo o que se seguiu. Então, se der errado, precisamos de…”

Me precipitei e o interrompi: “um plano alternativo?”.

Riu de bom grado e disse: “Não, precisamos de alguém para culpar sobre o que saiu errado”.

De forma geral, o Subcomandante Insurgente Moisés foi recordando pedaços do filme “A Lei de Herodes” e, quando eu pensava que acabaria no discurso final do deputado Vargas (a historia de um medíocre que se torna criminoso e depois governante, soa familiar?), se referiu à parte de “Há uma boa e uma má notícia”.

(Nota ociosa: “A Lei de Herodes” é um filme de Luis Estrada, com Martín Torres como ajudante de direção, história e roteiro de Jaime Sampietro, Fernando León, Vicente Leñero e o mesmo Luis Estrada, fotografia de Norman Christianson, música de Santiago Ojeda, maquiagem de Alfredo Mora e Felipe Salazar. Junto com “O Inferno” – também de Luis Estrada, com o grande Joaquín Cosío no papel do “Cochiloco”-, são os únicos filmes que conseguiram desbancar os de Jean Claude Van Damme do “top” cinéfilo nas comunidades e nos acampamentos zapatistas).

Depois acrescentou: “necessitamos planejar primeiro o que vamos fazer com a má notícia”.

Não era preciso muito para adivinhar que a má notícia era o fracasso da iniciativa. E não me refiro a não ter êxito em si, mas ser rechaçada pelo CNI, o qual, aceitando-a, se converteria no protagonista indiscutível de algo que iria surpreender ao México e ao mundo.

O Subcomandante Insurgente Moisés foi avançando nos detalhes.

“Veja, a primeira coisa que vai preocupar ao CNI é que os acusem de traírem sua palavra, que vão se meter na merda, que vão desviar do caminho, que estão claudicando. Ou seja, que se deixaram convencer pelo sistema e que querem dinheiro, ou seja o Poder, mandar, ser como os outros. Que se renderam, que se venderam. Haverão essas críticas, mas estou seguro de que eles tem a cabeça e o pensamento para responder a altura. Mas o problema é quem vai escutá-los. Vão atacá-los muito forte e não lhes darão a oportunidade sequer de se defender.

Mas aí podemos estendê-los a mão. Se nós, ou seja você, se põe para receber as críticas e os ataques, então o CNI poderá ver não apenas quem os ataca, também poderá ver pontos a favor e contra que não poderiam ser vistos até que se torne público. Tudo isso os vai ajudar a decidir se sim ou se não”.

Seguiu falando. Quase fez um retrato falado do que veio acontecendo nas últimas 4 semanas. Disse quem iria dizer o que, quem iria se colocar contra e por que, qual iria ser o pensamento do Mandão, quem iria se confundir, quem iria se esperançar, quem iria estender suas asas de abutres, e quem iria apoiar com tudo porque iria entender totalmente o que se colocava em jogo.

Depois de umas horas de perguntas e respostas, lhe disse: “Mas para isso não é necessário que eu esteja presente. Bastarão alguns comunicados, talvez alguma entrevista. As mídias são assim, pensarão que nada mudou, que se pode fazer o mesmo. Os de cima, bom, são tão previsíveis que dão até cansaço. Sairão com as de protagonismo, manipulação, divisionismo. Isso sim, se concentrarão em uma pessoa, nisso tem razão. Mas, lhe repito, para isso não é necessário que eu ajude. E mais, são tão quadrados que, sem sequer dizer nada, irão contra mim”.

“Não”, disse o SubMoy, “você que tem que apresentar a proposta. Não apenas porque se te veem ali pensarão que é coisa sua e as críticas vão cair redondinhas, também e sobre tudo porque os compas do CNI tem que entender que não é algo que só tem haver com os povos indígenas. É maior, muito maior”.

Então, depois de acender outro cigarro, acrescentou:

“Tão grande, ou mais, que o primeiro de janeiro de 1994”.

Não era nada depreciável a afirmação, sobre tudo vindo de quem veio. O Subcomandante Insurgente Moisés não é apenas veterano de guerra, chegou ao EZLN desde muito antes do início da guerra. O primeiro de janeiro de 1994 o levou a assumir o comando de um regimento e tomar a praça da sede municipal de Las Margaritas, ao mesmo tempo que carregava o corpo já sem vida do Subcomandante Insurgente Pedro. Anos depois, se encarregou das comunidades zapatistas. Em 26 de outubro de 2010, ascendeu ao grau de Subcomandante Insurgente, o mais alto na hierarquia militar do EZLN. No ano de 2012, “o dia do fim do mundo”, foi ele quem organizou e coordenou a mobilização silenciosa de mais de 40 mil homens, mulheres, crianças e idosos zapatistas que, nesta data, surpreenderam ao mundo. Em 14 de fevereiro de 2013, assumiu a chefia [do EZLN] e o cargo de porta-voz do zapatismo. Desde então, toda nossa palavra pública, e qualquer iniciativa nacional ou internacional, deve passar por sua aprovação.

E teve e tem razão: o empenho é tão, mas tão terrível e maravilhoso, que poderia ser maior que aquele primeiro de janeiro do ano 1994, que nos marcou permanentemente.

“Ainda que o CNI rechace a proposta, colocando-se apenas a pensar, a discutir, a dialogar, já não será igual, porque se passará do “isto nos fazem” a “vamos fazer algo”, e isso já leva a outro pensamento”, seguiu dizendo o Subcomandante Insurgente Moisés.

“E não estarão sozinhos nem sozinhas”, disse quase no final, “além de nós, terão ao seu lado as artes e as ciências”.

Antes de me retirar, preguntei-lhe por que o Congresso Nacional Indígena. O Subcomandante Insurgente Moisés se levantou para me acompanhar até a saída e me respondeu:

“Porque são os únicos que podem fazer o que nós não podemos”.

Depois, aconteceu o que aconteceu. O magistério democrático firmou sua rebeldia, os povos originários seguiram sofrendo ataques, desapropriações e desprezos, a Hidra seguiu devorando mundos e o CompArte explodiu em cores, sons, formas e movimentos que não foram nada mais que o prelúdio do que viria depois: um tremor terrível e maravilhoso.

Ainda na véspera preguntei ao Subcomandante Insurgente Moisés se havia alguma mudança. “Será como dissemos, prepare-se para ir”, me respondeu sem mais.

Chegamos no dia 9 de outubro ao CIDECI, quando a tarde já pendurava suas roupas manchadas em árvores e casas. Mais tarde, quando a noite já era ama e senhora do calendário e da geografia, as delegações do CNI chegaram espaçadas. Não era curto o caminho que precisavam percorrer para chegar.

Havíamos seguido com atenção todos e cada um dos processos no seio do CNI, sua palavra pública e privada. O CNI é o único espaço onde os originários podem fazer-se escutar. Sabíamos já que, à conta de assassinados, desaparecidos, encarcerados, agredidos, se somariam agora os cadáveres de territórios inteiros.

“Quando um território de um povo, nação, tribo ou bairro originário é despojado ou destruído”, dizia o Grande Vovô, Juan Chávez Alonso, um indígena purépecha que foi professor e guia do CNI e do EZLN, “então morrem com ele os originários que tem nele suas raízes e casas. E quando morre um povo originário, um mundo se apaga”.

Sabíamos então que nas mesas de trabalho e nas relatorias desse congresso haveria menos mundos. Não eram poucos os que chegariam a despedir-se, mesmo que ainda não o soubessem.

“Tem que começar já”, me disse o Subcomandante Insurgente Moisés, “há que dividir a carga”…

NASCE UMA PROPOSTA

No dia 9 de outubro de 2016, já de noite, pedimos umas primeiras reuniões com quem foi chegando. Nos reunimos em uma parte das instalações do CIDECI-Unitierra. A delegação zapatista se sentou em frente às delegadas e delegados do CNI que estavam chegando. Permitam que lhes fale um pouco sobre a delegação zapatista: eram 34, 17 mulheres e 17 homens; del@s, só 7 eram “d@s velh@s”; o resto, 27, eram comandantas e comandantes que eram crianças e jovens quando nos levantamos no primeiro de janeiro de 1994.

Nos saudamos com um aperto de mãos. Tod@s se sentaram, menos o Subcomandante Insurgente Moisés e eu. Ele me fez um sinal.

Comecei a falar, tratando de recordar tudo o que havíamos falado antes, explicando o que, palavras mais, palavras menos, iria repetir no dia seguinte, 10 de outubro, na plenária fechada, e depois na plenária aberta de 13 de outubro:

“Pensamos que temos que tomar uma decisão como CNI e EZLN. Temos que decidir se este Quinto Congresso será como outras reuniões, onde dizemos nossas dores, falamos de nossas resistências, nos queixamos, maldizemos o Sistema, declaramos que não vamos nos render, e depois voltamos cada um para sua terra, levando a contagem de agressões, despojos, injustiças, mortes.

Nossa dor chega a cada vez menos pessoas. Nossas mortes não encontram eco como antes. E não é que as pessoas de fora tenham ficado cínicas ou apáticas. É que a guerra que sofremos desde muito tempo como povos originários já chegou a elas, já está em suas ruas, em suas casas, em suas escolas, em seus lugares de trabalho. Nossas dores são agora uma entre muitas outras. E, ainda que a dor se estenda e se faça mais profunda, estamos mais sozinhos que nunca antes. Cada vez vamos ser menos.

Logo o CNI não poderá reunir-se porque não poderá sair de seus territórios, seja pelo dinheiro, seja pelo mal governo, seja pelas empresas, seja pela delinquência, seja porque a morte natural ou a morte má nos impedirão. Daqui a um tempo estaremos falando só entre nós mesmos, já sabendo o que vamos dizer.

Vocês, delegadas e delegados do CNI, estão aqui porque os delegaram, porque seus povos, nações, tribos e bairros buscam apoio, palavra e ouvido que lhes alivie e conforte. Vem para falar e escutar. Vocês devem a seus povos, a nada mais. Tudo está muito mal e, vocês e nós sabemos, vai piorar. Temos que fazer algo.”

Lhes contei então uma anedota acontecida ao finado Supmarcos durante a outra campanha, há 10 anos.

Ele contou que, em uma nação originária no noroeste do México, se reuniu com um chefe indígena. Como em outras vezes, o finado foi criticado porque o dito chefe havia recebido antes a governos institucionais. O finado disse que ele não havia sido mandado para julgar e condenar ou absolver, mas que devia escutar porque um dia iria necessitar. O chefe indígena o recebeu aparte e em privado.

Disse o chefe ao finado: “Sei bem que não queriam que se reunisse comigo, que te pressionaram para que não estivesse aqui. A mim também pressionaram para que não te recebesse. Não sei por que está aqui. Imagino que aqueles que te mandaram assim te disseram, que nos veja e escute. Não o sei. Mas vou lhe dizer por que te recebi. Eu recebi aos governos. Vieram de todas as cores e de todos os tamanhos. Chegam, tiram sua foto, dizem umas palavras, vão embora, não voltam. Eu os recebi porque meus anteriores me disseram que meu dever era garantir que minha gente, meu povo, não morresse, que sobrevivesse. Por isso os recebi, por isso lhe recebo. Não creio que me traga nem conselhos nem ensinamentos, ainda que é bom que não busque foto e escute ao invés de falar. Assim os recebi porque penso que assim meu povo sobrevive um tempo mais e não morre. Por isso te recebo, porque creio que algo se verá do que somos e desse encontro, ainda que só por pouco tempo, ajudará meu povo a sobreviver.” O finado anotou tudo em seu caderno, por isso tinha as palavras exatas do chefe indígena.

Depois dessas palavras, o chefe ficou calado. O finado pediu então permissão para falar. O chefe lhe concedeu a palavra. O finado disse, palavras mais, palavras menos (não as anotou no caderno porque não podia falar e escrever ao mesmo tempo): “Obrigado por receber-me. Tenho apenas uma pregunta: não te preocupa ter-se equivocado, quer dizer, que receber aos governos ou a mim não tenha ajudado a seu povo a não morrer e seja julgado como um mau chefe?”

O chefe indígena esperou para ver se a pergunta tinha acabado, depois respondeu: “A mim só me podem julgar meu próprio povo. Se meu povo me condena por isso que fiz e faço, quer dizer que não me equivoquei. Porque para que me julgue e condene, meu povo tem que ter sobrevivido. Assim, terei cumprido meu dever e prestarei boas contas aos mortos, ainda que os vivos me condenem”.

Aqui termina a anedota do defunto. Segui falando:

“Por isso vocês precisam ter claro a quem devem. Ao EZLN não devem nada. Tampouco à Sexta. A nada que não sejam seus próprios povos. Aqueles que representam não lhe devem nada. Devem fazer algo, porque logo para muitos não haverá nada e será demasiado tarde.”

Lhes dissemos que tinham que fazer algo, que seu dever era para com seus bairros, tribos, nações e povos originários, para com seus coletivos e organizações.

Lhes dissemos para fazerem algo, o que fosse; que, se achassem necessário, entrassem no MORENA (está nas gravações e podem certificá-lo as delegadas e delegados assistentes; foi a única vez que, por nossa parte, se mencionou aos quais depois, e antes de mais nada, deslegitimaram e condenaram a proposta, exibindo estupidez, racismo, intolerância, desprezo e franca esquizofrenia. Sim, a primeira opção que o zapatismo apresentou ao CNI foi apoiar ao Partido Movimento de Regeneração Nacional). Ou que entrassem a qualquer outro partido político. Ou que fizessem seu próprio partido político.

Que em tudo isso não os iríamos seguir, mas iríamos compreender por que o faziam e não teriam, de nossa parte, nem julgamentos nem condenações.

Lhes dissemos que, se a Sexta os impedisse, que a deixassem.

Que se o EZLN os impedissem, que cortassem a relação conosco.

Não necessito dizer-lhes que, em cada uma dessas opções, as delegadas e delegados faziam gestos como se estivessem espantando moscas impertinentes. Todas e todos se mantiveram calados. Segui:

“Façam algo, isso ou outra coisa.”

Aqui voltei a olhar para o Subcomandante Insurgente Moisés. Ele fez um gesto para que continuasse:

“Nós viemos propôr outra coisa: estamos agredidos, com mortes, desaparições, sequestros, encarceramentos, despojos, injustiças, territórios inteiros destruídos e outros em vias de extinção. Estamos encurralados, sem esperanças, sem forças, sem apoios, débeis, agonizantes. Para os políticos e os meios, mesmo que sejam de esquerda ou progressistas, não existimos.

Assim, nós zapatistas pensamos que é o momento de passar à ofensiva. Chegou a hora do contra ataque. E há de começar atacando um dos corações do Sistema: a política dos de cima.

Por isso lhes propomos que o CNI forme uma Junta de Governo Indígena (assim se chamava na nossa proposta original; já na assembleia, com a proposta de uma delegação indígena magonista5 de Oaxaca, passou a se chamar “Concelho Indígena de Governo”), um coletivo formado por delegados do CNI que aspire a governar o país. E que se apresente às eleições presidenciais de 2018 com uma mulher indígena do CNI como candidata independente.”

Não, ante essa proposta as delegadas e delegados não fizeram como se estivessem espantando um inseto irritante, mas francamente se enojaram. Alguns se irritaram muito (mas bem se emputeceram). Outros mais disseram que, como piada, era muito ruim, que não lhes dava vontade de rir e sim dor de estômago. Mas a maioria ficou em silêncio.

Devo dizer-lhes que, no modo dos originários, o silêncio não significa acordo, convencimento ou falta de argumentos. Significa que escutam e, olham, pensam e analisam antes de falar (sim, a muitas pessoas lhes faria muito bem seguir esse método).

Por que nos escutaram? Porque nos consideramos irmãos e irmãs. O respeito que temos mutuamente fez com que nos escutassem até o final.

E entenderam que não era uma ideia que havia apenas ocorrido, mas uma ideia que poderia chegar a ser uma proposta. E como tal começaram a pensá-la.

Depois de um extenso silêncio, alguém iniciou dizendo algo como: “estou pensando que assim poderíamos reconstruir o CNI, que a iniciativa daria outra vez visibilidade aos indígenas. Porque, há que se dizer claramente compas, não existimos para a classe política. Já nem mais como objeto de esmolas nos mencionam. E creio que, com esta proposta, não apenas poderíamos encontrar-nos com outros indígenas, também nos encontraríamos com muita gente de abaixo que está fodida. Há muito descontentamento em todo o país, e não há alternativa para os indígenas, e tampouco para os que não são indígenas. Claro, a proposta tem várias coisas em contra que temos que analisar com seriedade”.

Alguém mais tomou a palavra e mencionou dois contras: o racismo que há na sociedade mexicana; e que os iriam criticar e atacar por buscar o Poder. Ambos pontos contra se repetiram nos comentários posteriores. Não, nem nessa reunião, nem nas seguintes, ninguém mencionou como ponto contra que seriam acusados de querer “dividir à esquerda”.

Assim foi como a ideia começou a deixar de ser só nossa. Assim foi como o CNI começou a pensá-la e a fazê-la sua. A palavra foi ampliando-se mais e mais. Logo, todas as delegações estavam pensando, opinando, comentando. A absurda ideia começava a converter-se em uma proposta coletiva.

Na assembleia plenária fechada do dia 10 de outubro e nas mesas de trabalho do dia 11, a palavra ia e vinha. Sem deixar de cumprir com o mandato que levavam as delegações, o tema central deixou de ser a denúncia. A possibilidade de passar à ofensiva se converteu no mais importante. Nas mesas de trabalho (foram 4), às quais podia-se assistir como observadores, algumas e alguns compas da Sexta, quando se falava do tema, se moviam nervosos em suas cadeiras, se olhavam un@s a@s outr@s (não podiam falar, só escutar), voltavam a ver a delegação zapatista (havíamos nos dividido para cobrir as 4 mesas e ter assim total conhecimento de todas as denúncias e experiências das delegações do CNI). Mais de um@ saiu com evidente raiva.

Um movimento febril percorria reuniões grandes e pequenas. Quem podia, chamava por telefone a seus povos, contando-lhes o que se discutia, pedindo opiniões, pareceres. Os prós e os contras eram analisados e discutidos. Se faziam listas de uns e outros. Se pensavam. Se buscava a resposta a uma pergunta: “Valeria a pena?”.

A ideia já havia deixado de ser do EZLN. Era agora do Congresso Nacional Indígena. No coração coletivo dos povos originários crescia o eco das palavras iniciais do Subcomandante Insurgente Moisés, em nome de todas e todos os zapatistas:

“Agora é a hora do Congresso Nacional Indígena. Que a seu passo estremeça em seus centros a terra. Que em seu sonho se derrotem o cinismo e a apatia. Que em sua palavra se levante a de quem não tem voz. Que em sua visão se ilumine a obscuridade. Que em seu ouvido encontre casa a dor de quem se pensa sozinho. Que em seu coração encontre consolo e esperança o desespero. Que com seu desafio se surpreenda de novo o mundo”

-*-

Mas faltava o que faltava.

Além de analisar os prós e os contras, para o CNI teria que ficar claro qual era o papel do zapatismo nessa iniciativa.

Com a antecipação devida, o Subcomandante Insurgente Moisés e o Comitê Clandestino Revolucionário Indígena haviam organizado uma pequena festa para homenagear o aniversariante, o Congresso Nacional Indígena, que nesse dia 12 de outubro de 2016 chegava aos 20 anos sendo casa, ouvido, palavra e eco dos povos originários de México.

O lugar? O caracol de Oventik, nas montanhas do sudeste mexicano.

Foram recebidas as delegações do CNI conforme os protocolos zapatistas para convidados especiais. Claro, houve um esforço extra para honrar essas visitas. Não são todos os dias que se pode receber a nossos familiares mais próximos, os quais tem em comum com os povos zapatistas o sangue, a dor, a raiva, a resistência e a rebeldia. Ou seja, a história.

A princípio não entendi por que o Subcomandante Insurgente Moisés havia disposto o alojamento das delegações dessa forma: na tenda principal acomodou as delegações do CNI e em frente colocou uma pequena plataforma onde ficou a direção zapatista, encabeçada pelo mesmo.

Eu pude ver tudo porque me movia de um lado para o outro, tratando de convencer às companheiras e companheiros do CNI que podiam subir nos bancos para ver melhor. “É que trago lodo nos sapatos e vou sujar o banco”, argumentou uma delegada. “Companheira”, lhe disse, “aqui o que não falta é lodo, então não tenha pena”.

O CNI nomeou uma mulher indígena delegada para tomar a palavra na cerimônia. Falou o Comandante David para dar as boas vindas. Logo falou a companheira do Congresso Nacional Indígena. Ela falou como se fala entre familiares: com o coração na mão. Não vou repetir suas palavras, nem as que o Subcomandante Insurgente Moisés disse depois em nome de todas e todos nós. A companheira do CNI já ia se retirar quando o Subcomandante Insurgente Moisés lhe pediu que ficasse.

Ali ficou a companheira durante todo o ato, rodeada pela chefia indígena zapatista, de frente às delegações do Congresso Nacional Indígena.

Então entendi.

Eu olhava desde uma lateral, mas com a perspectiva visual das delegações do CNI, as quais puderam ver como uma mulher, indígena como elas e eles, do Congresso Nacional Indígena como eles e elas, era acompanhada pela máxima autoridade do EZLN, cobrindo-a, protegendo-a, acompanhando-a, apoiando-a, marcando o que nos fazia diferentes, mas companheiras e companheiros.

Foi assim que, com esse símbolo, o Subcomandante Insurgente Moisés respondeu à pergunta que rondava as delegações do CNI desde o primeiro dia: “Que lugar teria o EZLN na iniciativa se fosse aprovada?”

Houve depois danças, peças de teatro, canções e poesias.

Ao final do ato, uma companhia miliciana zapatista apresentou um comunicado completo sem dizer uma palavra.

Depois? A comida: carne e peru, à escolha, café e pozol6. Depois se retiraram.

No outro dia, o 13 de outubro, foi a assembleia geral resolutiva…

POR QUE?

O 13 de outubro iniciou com bons presságios: uma das mesas de trabalho não havia terminado e a abertura da assembleia plenária foi atrasando. Depois se iniciou com a apresentação das relatorias. Sim, uma das mesas não havia terminado de transcrever. Seguiu o atraso, como deve ser em qualquer decisão importante. Ah, eu sei. Em vão dissemos, nós somos a atualização constante do software “a rebelião dos travados”.

Por indicações do Subcomandante Insurgente Moisés, nas três assembleias plenárias (a fechada, a de inauguração e a de encerramento) a delegação zapatista se sentou atrás, ao fundo do auditório do CIDECI-Unitierra. Assim ficava claro qual seria o assunto: era a hora do Congresso Nacional Indígena.

Quando ao fim se chegou ao tema de “Propostas para o fortalecimento do CNI”, o Subcomandante Insurgente Moisés pediu a palavra para a delegação zapatista. Lhe foi concedida e o SubMoy passou à frente. Iniciou suas palavras mais ou menos assim:

“Me contaram um filme, creio que se chama “A Lei de Herodes” (risadas gerais, menos minha careta particular, porque já sabia o que seguia). Então, nesse filme que me contaram há uma parte onde o Vargas diz: trago uma boa e uma má notícia (mais risadas gerais, mais caretas particulares). Então temos que ver o que vamos fazer com a má notícia. Ou seja, em quem vamos colocar a culpa do que deu errado. Então vou pedir ao SupGaleano que passe a explicar a proposta” (mais risadas gerais, já nenhuma careta particular).

Passei à frente. Depois de esclarecer que fazia com muito prazer meu trabalho de “saco de pancadas”, ou de “plano alternativo”, e que para mim era um poderoso afrodisíaco receber críticas e insultos (bom, o disse de forma mais prosaica, mas esse era o sentido), disse o que tinha sido confiado a dizer. O farei de forma sintética, posto que já são várias páginas e, se você já chegou até esta, merece um pouco de consideração. Além do mais, agora você saberá o por quê de o ezetaelene ter feito essa proposta e por que ao CNI.

Primeiro insistimos em que nossa proposta original era a de uma mulher indígena, delegada do CNI, de sangue indígena, que fale sua língua e conheça sua cultura. E abrimos com isto porque o referente a “uma mulher” estava se diluindo nas conversas e mesas de trabalho. Primeiro passaram a dizer “a candidata ou candidato”, depois “o candidato ou candidata”, depois apenas “o candidato”.

Assim lhes recordamos que não se podia tomar uma decisão ali, nesse Quinto Congresso, porque era um compromisso desde seu nascimento, que o Congresso Nacional Indígena consulta-se com aqueles que o formam as propostas que se apresentam nas reuniões. Os sete princípios obrigavam o CNI a consultar a si mesmo, segundo o modo de cada qual.

Depois lhes dissemos o que acreditamos a respeito da iniciativa:

Que o Concelho Indígena de Governo deveria ser formado por delegados e delegadas de todos os coletivos, organizações, bairros, tribos, nações e povos originários organizados no Congresso Nacional Indígena.

Que não vão ganhar, porque o sistema eleitoral no México está feito para beneficiar aos partidos políticos, não para os cidadãos.

Que, se ganharem, não os vão reconhecer, porque a fraude não é uma anomalia do sistema eleitoral mexicano, é sua coluna vertebral, sua essência.

Que, se ganharem e se forem reconhecidos, não vão poder fazer nada transcendental, porque lá acima não há nada para fazer. As questões fundamentais da maltratada nação mexicana não são decididas nem pelo poder executivo, nem nas câmaras legislativas, nem no poder judicial. O Mandão não tem cargo visível e o despacha nas catacumbas do Poder financeiro internacional.

E que, não apesar de todo o anterior, mas precisamente por todo o anterior, podiam e deviam fazê-lo.

Porque sua ação iria significar não apenas um testemunho de inconformidade, mas um desafio que seguramente encontraria eco nos muitos abaixos que há no México e no mundo; que poderia gerar-se um processo de reorganização combativa não só dos povos originários, também de obreiros, camponeses, empregados, colonos, professores, estudantes, em fim, de toda essa gente cujo silêncio e imobilidade não é sinônimo de apatia, mas de ausência de convocatória.

Em resposta ao que se havia dito de que era impossível, que havia muitos contras, que não iriam ganhar, lhes respondemos que, se nos tivéssemos encontrado em 31 de dezembro de 1993 e tivéssemos lhes dito que, em algumas horas, iríamos nos levantar em armas, declarar guerra ao mau governo e atacar os quarteis da polícia e do exército, também nos teriam dito que era impossível, que havia muitos contras, que não se iria ganhar.

Lhes dissemos que não importava se ganham ou não a presidência da República, que o que iria importar era o desafio, a irreverência, a insubmissão, a quebra total da imagem do indígena objeto de esmola e de lástima (imagem tão arraigada na direita e, quem diria, também na esquerda institucional da “mudança verdadeira” e seus intelectuais orgânicos viciados no ópio das redes sociais), que seu atrevimento fará tremer o sistema político inteiro e que teria ecos de esperança não em um, mas em muitos dos Méxicos de baixo… e no mundo.

Lhes dissemos que a iniciativa estava no tempo para que, com toda liberdade e responsabilidade, decidissem desde onde a levariam e até onde a levariam.

Lhes dissemos que poderiam decidir a todo momento o que, porque era seu passo, e que o destino que marcavam romperia todos os esquemas, sobre tudo os daqueles que creem e pensam ser a vanguarda da mudança e da revolução.

Lhes dissemos que, se estavam dispostos a desafiar uma sociedade racista, deveriam ir mais além e desafiar também a um sistema patriarcal e machista (não é o mesmo, como mostra quem milita na luta feminista).

Lhes dissemos que as comandantas zapatistas diziam que elas podiam tratar de apoiar às companheiras que estiverem no Concelho Indígena de Governo e à companheira que estivesse como porta voz e candidata, cuidando de seus filhos na comunidade. Que os cuidaríamos bem, como se fossem nossos próprios. Iriam à escola autônoma para que no se atrasem em seus estudos, veríamos quais doutoras e doutores solidários seriam encarregados de sua saúde. E que, se tiverem animais, pois também os iríamos cuidar. Que as companheiras do CNI fariam sem problemas esse trabalho se assim o mandasse o acordo do CNI.

Lhes dissemos que não se preocupassem se não souberem falar bem espanhol. Que o Peña Nieto tampouco sabe e ali está.

Lhes dissemos que podíamos reorientar nossa economia de resistência e fazer um chamado a pessoas, coletivos e organizações do México e do mundo, para conseguir o dinheiro para mover-se onde for necessário. Assim poderiam ter a liberdade de renunciar ao financiamento institucional que o sistema dá às candidaturas independentes.

Lhes dissemos que não só pensávamos que podiam governar nosso país que se chama México, também podiam governar o mundo inteiro.

Lhes dissemos que aproveitassem para falar e escutar a outros povos originários, e a outros e outras que não são indígenas, mas que igual estão sofrendo sem esperança nem alternativa.

Lhes dissemos que havia coisas que nós como zapatistas podemos fazer e o CNI não. E que o CNI podia fazer coisas que nós como zapatistas não podemos fazer.

Lhes dissemos que elas, eles, o coletivo que se chama Congresso Nacional Indígena, podia fazer o que ninguém mais (incluindo o zapatismo) podia fazer: unir. Porque um movimento legítimo, como o dos povos originários, pode e deve ser um ponto de união entre os diferentes mas iguais em empenho.

Mas não “unir” em baixo de uma sigla, uma hierarquia, uma lista de siglas reais ou suplantadas. Não. Unir como ponto de confluência, ser o punho onde as diferenças e rivalidades encontram um ponto comum, onde coincidem. A terra, pois. E, para isso, quem melhor que aqueles que são a cor da terra, que são da terra.

Lhes dissemos que, em torno desse Concelho e dessa mulher indígena, podia gerar-se um grande movimento que fará tremer o sistema político inteiro.

Um movimento onde confluiriam todos os de abaixo.

Um movimento que faria estremecer a terra em seus centros.

Sim, já no plural, porque são muitos os mundos que na terra deitam e aguardam uma boa sacudida para nascerem.

Lhes dissemos que talvez, então, não importará se se juntam ou não as assinaturas, se sai ou não o dinheiro para mover-se, se se obtém ou não o registro da candidata, se se apresentam ou não as outras candidaturas para debater, se se participa ou não nas eleições, se se ganha ou não, se se reconhece ou não o triunfo, se se pode ou não fazer algo lá em cima.

E não iria importar, porque seriam outros os problemas, outras as perguntas, outras as respostas.

Lhes dissemos que não lhes íamos herdar nossas fobias e filias, que respeitaríamos suas decisões, seus passos, seus caminhos.

Lhes dissemos que, como zapatistas, seríamos uma força a mais entre as que seguramente haveriam de sentir-se convocadas por seu desafio.

E lhes dissemos o mais importante que havíamos ido dizer-lhes: que estávamos dispostos a apoiar com toda nossa força.

Que íamos apoiar com tudo o que temos, que, ainda que pouco, é o que somos.

-*-

Seguiram as participações, todas já no sentido de fazer própria do CNI a proposta. Um ou outro pedindo que já se decidisse ali mesmo. A imensa maioria assinalando que deviam consultar.

A comissão relatora nos passou uma cópia do projeto resolutivo.

Instintivamente tomei um lápis para adicionar vírgulas e pontos.

O Subcomandante Insurgente Moisés me deteve e murmurou:

“Não, essa palavra já é delas e deles. É grande essa palavra, maior que nós, zapatistas. Como dizia o finado: somos os menores, nos cabe ficarmos de lado e esperar…”

A CONSULTA INTERNA ZAPATISTA

Poderíamos dar-lhes os resultados e pronto. Mas acreditamos que talvez os ajude a entender, e entender-nos, se lhes contarmos como foi o processo.

Desde o dia 15 de outubro de 2016, a delegação zapatista no Quinto Congresso do Congresso Nacional Indígena, junto com a CG-CCRI do EZLN, se deram a tarefa de organizar a consulta interna para conhecer a opinião e decisão das bases de apoio zapatistas sobre a proposta central.

A consulta interna fizemos em todas e cada uma das comunidades, coletivos, regiões e zonas zapatistas. Também incluímos na consulta as companheiras, companheiros, irmãos e irmãs da cidade, que participam em diversas equipes de apoio da Comissão Sexta do EZLN. Não foram incluídas na consulta as tropas insurgentes zapatistas porque não é nosso trabalho tomar esses tipos de decisões.

Fizemos a consulta segundo nosso modo, seguindo uma guia que realizou o Subcomandante Insurgente Moisés na manhã do dia 14 de outubro de 2016, antes de ser feito público o texto “Que estremeça em seus centros a terra”:

1.- Informação. – Ou seja, em cada comunidade, coletivo, região e zona, primeiro se informou o que se disse nesses dias do mês de outubro de 2016. Se informou das dores de nossos povos irmãos do Congresso Nacional Indígena, de todas as maldades que lhes fazem os capitalistas, que exploram, reprimem, depreciam e roubam aos povos originários, de como estão matando povos inteiros. Mas não apenas, também informamos de como se organizam e resistem contra essa política de morte e destruição. Para este informe, usamos a relatoria feita pela comissão provisória do CNI, o documento que foi feito que se chama “Que estremeça em seus centros a terra ”, e o resumo e as notas feitos pela delegação zapatista sobre essa primeira etapa do Quinto Congresso do CNI.

Este ponto é muito importante, porque é aqui onde convertemos a nossas irmãs e irmãos, companheiros e companheiras, em ouvido e coração para as dores e resistência de outros que são como nós em outros lugares. É muito importante e urgente este ponto, porque se não nos escutamos entre nós, menos as outras pessoas vão nos escutar.

2.- A proposta. – Se disse e se explicou qual é a proposta: que o Congresso Nacional Indígena nomeie um Concelho Indígena de Governo (que é como uma Junta de Bom Governo, mas nacional, ou seja, em todo o México), formado por representantes mulheres e homens de cada um dos coletivos, organizações, bairros, tribos, nações e povos que estão organizados no Congresso Nacional Indígena. Ou seja, que este Concelho seja formado por indígenas, e elas e eles são os que vão governar o país.

Esse Concelho Indígena de Governo é coletivo, ou seja, não é uma pessoa que manda, mas todas e todos fazem seus acordos para governar. Esse Concelho Indígena de Governo não faz o que lhe ocorre, mas toma em conta o que dizem os povos de todo o México, indígenas e não indígenas.

Ou seja, que esse Concelho tem os 7 princípios do Mandar Obedecendo:

servir e não servir-se;

representar e não suplantar;

construir e não destruir;

obedecer e não mandar;

propor e não impor;

convencer e não vencer;

baixar e não subir.

Esse Concelho Indígena de Governo tem como porta voz uma mulher indígena do CNI (não do EZLN), ou seja, que tem sangue indígena, que fala sua língua originária e conhece sua cultura. Ou seja, tem como porta voz uma mulher indígena do CNI.

Essa mulher indígena do CNI é a que se apresenta como candidata à presidência do México em 2018. Como não se pode colocar todos os nomes de quem é do Concelho Indígena de Governo, porque pode haver confusão, então o nome que se põe é o da porta voz do Concelho. Não é que essa mulher indígena está em um partido político, mas é uma candidata independente. Assim se diz quando alguém está em uma eleição, mas não pertence a um partido político.

Então, esse Concelho Indígena de Governo, junto com a mulher indígena do CNI, se põe a percorrer tudo o que puder do México e do mundo para explicar como está a situação em que estamos por culpa do sistema capitalista, que explora, reprime, rouba e deprecia aos de baixo, aos pobres do campo e da cidade, e que, além disso, já está destruindo a natureza, ou seja, está matando o mundo em que vivemos.

Esse Concelho Indígena de Governo vai tratar de falar e escutar humildemente a todos os indígenas do México em seus povos, regiões, zonas, estados, para convencê-los de que se organizem, de que não se entreguem, de que resistam e de que se governem a si mesmos, assim como fazemos como zapatistas que somos, que ninguém nos disse como ou o que temos que fazer, mas sim que os próprios povos decidem e mandam.

Esse Concelho Indígena de Governo também vai tratar de falar e escutar a quem não é indígena, mas que também é explorado, reprimido, roubado e menosprezado no México e no mundo. Igualmente, vai levar-lhes uma mensagem de organização e luta, de resistência e rebeldia, segundo o modo de cada qual, segundo seu calendário e sua geografia.

Para que essa mulher indígena, delegada do CNI, seja reconhecida como candidata pelas leis mexicanas, tem que juntar quase um milhão de assinaturas de pessoas com título de eleitor. Se as junta e estão válidas as assinaturas, então a reconhecem como candidata independente para presidenta do México e colocam seu nome para que, no ano 2018, as pessoas votem ou não, segundo o pensamento de cada um. Então se trata do Concelho Indígena de Governo e a porta voz indígena percorrerem o México onde haja pessoas mexicanas para conseguir as assinaturas para registrar. Depois, fazer outra volta no percorrido para que a apoiem e votem pela indígena do CNI.

Como zapatistas, pensamos que, ao fazer esse percurso, o Concelho Indígena de Governo e sua porta-voz irão conhecer muitas dores e raivas que há no México e no mundo. Dores e raivas de pessoas indígenas, mas também de pessoas que não são indígenas, mas que também sofrem, mas resistem.

Então isso é o que se quer. Não se busca que uma mulher indígena do CNI seja presidenta, o que se quer é levar uma mensagem de luta e organização aos pobres do campo e da cidade do México e do mundo. Não é que levamos em conta que juntar as assinaturas ou ganhar a eleição é o que deu certo. Mas que dá certo quando se pode falar e escutar a quem nada fala nem escuta. Aí vamos ver se deu certo ou não, se muita gente vai conseguir força e esperança para organizar-se, resistir e rebelar-se.

Até onde se chega? Até onde decida o Congresso Nacional Indígena.

3– Depois, disseram e explicaram os pontos contra dessa proposta. Por exemplo:

.- vão nos criticar como zapatistas que somos, porque dissemos que não lutamos pelo Poder e agora queremos ter o Poder.

.- vão nos criticar que traímos nossa palavra de que não queremos cargos.

.- vão nos criticar que falamos mal dos partidos políticos, mas vamos fazer igual a isso que criticamos.

.- vão nos acusar de estarmos apoiando ao partido PRI7 porque vamos dividir os votos da esquerda e assim ganha a direita.

.- vão nos criticar que as mulheres indígenas não tem educação e não sabem falar espanhol.

.- vão nos menosprezar, dirão que os indígenas não temos bom pensamento para governar.

.- vão nos xingar muito e mal dizer a nós como indígenas que somos.

(Vejam, racistas e machistas: antes que começassem seus ataques, os indígenas zapatistas já sabíamos o que vocês iam dizer. E isso que nós que somos os tontos e ignorantes, e vocês são os muito inteligentes e sábios).

Nas assembleias participaram as companheiras e companheiros, falando outras coisas que podem ser pontos contra.

Por exemplo, falaram da segurança, que os governos podem fazer um ataque contra o Congresso Nacional Indígena e a candidata para que não ganhe; que os maus governos podem atacar-nos às comunidades zapatistas para que não apoiemos ao CNI; que farão armadilhas para que não avance a luta do CNI, porque os maus governos são ardilosos e traiçoeiros; que vão chegar os urubus políticos para ver o que podem tirar para si, em sua ganância individual, da luta dos povos indígenas; que há quem vai querer levar a luta dos povos indígenas por outro caminho; e outras coisas.

4.- Depois falaram os pontos a favor dessa proposta. Por exemplo:

.- serve para que a sociedade mexicana volte a ver e escutar aos povos índios do México, que agora já nem são mencionados.

.- serve para que se possa escutar e falar com indígenas de todo o México que não estão organizados e estão sendo destruídos pelos malditos capitalistas.

.- serve para que os indígenas voltem a ter orgulho e honra de serem indígenas, de sua cor, sua língua, sua cultura, sua arte, sua história.

.- serve para que as mulheres indígenas se levantem com sua própria voz e se organizem, assim como as mulheres zapatistas se levantaram e organizaram.

.- serve para explicar à gente de baixo sobre toda a destruição e mal que estão fazendo os malditos capitalistas.

.- serve ao Congresso Nacional Indígena, para que conheçam como é o modo do CNI e mais povos, nações, tribos e bairros indígenas entrem no CNI e se conheçam entre si como indígenas e vejam suas dores e suas forças.

.- serve como zapatistas que somos, porque assim podemos apoiar a nossos irmãos e irmãs indígenas de outras partes, para que sigam sua luta e possam viver com liberdade e dignidade.

.- serve para os povos zapatistas, porque assim mais gente conhecerá como é nossa história de luta e de como nos temos organizado, e se animar.

.- serve para os povos zapatistas porque assim aprendemos a organizar-nos já não apenas para ajudar-nos entre nós, mas também organizar-nos para apoiar a outros que lutam, como fizemos com os professores democráticos.

5.- Depois passou-se a pensar se essa proposta serve ao Congresso Nacional Indígena ou não serve.

6.- Depois passou-se a pensar se esta ideia nos serve como zapatistas que somos ou não nos serve.

7.- Depois passou-se a discutir se apoiamos ou não apoiamos essa proposta e, se resolver-se que sim, como não podemos apoiar como zapatistas que somos; e depois como podemos sim apoiar como zapatistas que somos.

Por exemplo, não podemos apoiar com as assinaturas porque os zapatistas não usam título de eleitor; tampouco podemos ser candidatas ou candidatos porque como zapatistas não lutamos pelo Poder; não podemos votar porque não usamos esse modo de votar, de jogar um papel em uma caixa, mas fazemos nossos acordos em assembleias onde todos participam e dizem sua palavra.

Mas podemos sim apoiar de outras formas, por exemplo: podemos apoiar explicando essa boa ideia e convencendo aos que usam o título, que o usem para apoiar à mulher indígena do CNI; podemos falar com as pessoas da cidade que nos apoiam como zapatistas para que também apoiem ao Concelho Indígena de Governo; podemos organizar-nos como coletivos e governos autônomos para conseguir algum dinheiro para apoiar ao CNI, para que possa viajar a todos os lados que precisar; podemos falar e convencer as pessoas da cidade para que também se organizem para conseguir dinheiro para o CNI; podemos explicar no México e no mundo como é que fazemos para governar-nos nós mesmos e assim vejam as pessoas de bom pensamento que, como indígenas, sabemos sim governar.

-*-

E, bom, também foi informado a todos os povos outro dos acordos do Quinto Congresso: que se, na consulta zapatista interna (e na de qualquer coletivo, organização, bairro, tribo, nação e povo originário do CNI) sair como resultado que não se apoie a proposta, que é uma má ideia e não se está de acordo, então o Congresso Nacional Indígena respeita essa decisão, ainda que a maioria diga que a apoia. Quer dizer, se segue fazendo parte do CNI. Ou seja, que não é a força, que quem não está de acordo tem que fazer o que decide a maioria. Ou seja, que se respeita a autonomia, os modos de cada qual.

Igual como se fazem nas comunidades indígenas zapatistas, não é que vai ficar mal visto ou ser expulso dos zapatistas quem pense diferente, mas vamos respeitar e levar em conta. Como é nas nossas assembleias comunitárias, que não é porque alguém está pensando o contrário do que disseram a maioria que o expulsamos, mas segue.

Como se pode ver, a consulta interna teve seu foco em se apoiava ou não o que resultara da consulta do CNI. Estes são os resultados:

Se consultaram várias dezenas de milhares de homens e mulheres zapatistas. Delas e deles, a imensa maioria se manifestou por apoiar a decisão a que chegou o CNI na medida de nossas possibilidades. Se manifestaram contra 52 compas (26 companheiras e 26 companheiros). Se manifestaram como “não sei”, ou “indecisos”, 65 compas (36 companheiras e 29 companheiros). As razões que deram aqueles que se manifestaram contra são diversas: desde o compa que disse “eu vou votar contra para ver se é verdade que me respeitam e não me expulsam dos zapatistas”; até aqueles que argumentaram que não iriam estar em seu povo e não queriam comprometer-se porque não iriam poder cumprir o trabalho que fosse decidido. Aqueles que se manifestaram indecisos disseram, entre outras coisas, que em vão se decide, pois ainda não se sabe o que vai dizer o CNI, que podem dizer que apoiam e o CNI dizer que não.

O QUE ESPERAR?

Compas:

Pronto, esta é a última parte. Obrigado a quem chegou até estas linhas… hem?… sim, claro, ficam pendências… sim… dúvidas, claro… perguntas, com certeza…, o que?… qual vai ser o resultado da consulta do CNI?… Querem um spoiler?… ok, ok, ok, deixem surpresa… Yá… que lhes diga a verdade, lá vai:

Lhes somos sinceros: não temos nem a mais remota ideia.

E é sério.

Já vimos antes como uma proposta vai se modelando com o trabalho da palavra no modo dos originários. Como se uma ideia não fosse mais que uma massa disforme de barro e mãos coletivas lhe vão dando forma, tamanho, cor, destino.

Assim, tal como vocês, estamos esperando.

Ainda que, por certo, nós zapatistas não esperamos o mesmo que vocês.

Vocês, cremos, estão esperando qual é o resultado e tudo vai se derivar daí.

Nós zapatistas estamos esperando o que vai acontecer depois, no dia depois. E já nos preparando para esse calendário.

Desde as montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Moisés. Subcomandante Insurgente Galeano.

México, novembro de 2016.

Do caderno de Anotações do Gato-Cão.

Não creiam que não me preparei para o caso em que, na consulta do CNI, saia que se rechaçou a proposta. Não, não me preocupa. Já tomei minhas providências. Por exemplo: já tenho um certificado médico de que estou na lista de espera para uma operação de mudança de sexo, assim como um trâmite de adoção com uma família indígena zapatista. Assim poderão dizer que tudo era uma jogada para ser eu o candidato… ok, ok, ok, a candidata à presidência da República.

Ah, minha perversidade é sublime, não?

Claro, com essa saída me arruinará a correspondência feminina. Oh, esperem, já não há correspondência, nem feminina nem não feminina. Ah, se tivesse redes sociais faria várias contas alternativas (não se façam de desentendidos, vocês mesmos o fazem) e me auto daria rt, follow e like, e também me auto trolaria, para que se visse que é tudo f-i-d-e-d-i-g-n-o. Quantas contas alternativas se podem fazer até chegar ao limite? Não se façam de desentendidos, com certeza que já o investigaram.

Em fim, já me ocorrerá algo.

Agora, se sair que foi aprovada, pois haverá que trabalhar para conseguir dinheiro. Então me porei em contato com oas companheiroas da Brigada Callejera8, que me separem uma esquina na La Meche. Não tem jeito, a rua é de quem a trabalha. Estou seguro que minha pançinha causará agitação… hem?… ok, ok, ok, minha pança… que?… bom, minha pançona… não lhes digo?, sim, que são maloras9, são.

O SupGaleano arrebentando várias cintas.

(não, obrigado, de verdade, não, não necessito que alguém venha me colocar um cinto… voooi, ei, mostre o seu verdadeiro eu claramente, ei, puro azar do sessentão, ei, por isso não oas querem os bem arrumados, ei… hem?… um reality show para conseguir dinheiro?… com Trump, Macri, Temer, Putin e Rajoy10 trocando nudes?… muito fraco… já não assistem essa televisão… melhor séries de TV em produção alternativa…sim, nos camelôs já está a nova temporada de Games of Thrones… sim, acaba que o Tyrion e o Snow são parentes da Dayanaris… como se diga, pois… sim, um dragão para cada um, uma mensagem de equidade… sim, no novo escudo se unem o leão, o lobo e o dragão… bom, sim, uma versão da Hidra… sim, como se unisse o grande capital financeiro, com o industrial e o comercial… sim, o sistema se recompõe e todos os de cima contentes, e os de baixo pro caralho… sim, mas estão vendo um final alternativo… sim, quando todo o grupo está agarrando a caneca para celebrar não sei o que, chega uma mulher indígena, caga no trono de ferro e, com um maçarico, o derrete … bom, estão vendo se lhe tiram o maçarico e lhe dão uma caixa de fósforos, para que demore, o suspense… sim, tem chance de outra temporada, dependendo de quantos fósforos leve… sim, aí acaba… pois, por causa do Brexit , os custos se foram às nuvens. E agora com o Trump, pior… O que? Não querem spoilers? Oh, pois, para que me convidam se já sabem como sou).

Dou fé.

Miau-guau.

Tradução: CLAZ

Notas:

[1] Documento místico-religioso do povo Maia guatemalteco.

[2] Referente ao partido de extrema direita mexicano – PAN – Partido da Ação Nacional.

[3] Apelido dado pelos zapatistas à Margarita Ester Zavala Gómez del Campo, politica e ex-primeira dama do México no período da presidência de Felipe Calderón Hinojosa (2006-2012), ambos do PAN. La Calderona já anunciou sua intenção de concorrer à presidência em 2018.

[4] Termo depreciativo utilizado para se referir ao subcomandante Galeano (anteriormente Marcos).

[5] Corrente do anarquismo mexicano referente às ideias dos irmãos Enrique e Ricardo Flores Mágon.

[6] Bebida de água, açúcar e farinha de milho batida.

[7] Partido Revolucionário Institucional. Partido conservador do atual presidente do México, Peña Nieto.

[8] Brigada Callejera de Apoyo a la Mujer. Organização apartidária que apoia as mulheres trabalhadoras sexuais e mulheres trabalhadoras sexuais transgênero.

[9] No folclore de Chiapas, um tipo de ser fantasmagórico em forma de mulher que atraia os homens às vezes se transformando em mulheres conhecidas. Ao prendê-la com um cinto encantado, ela se transforma em folhas secas.

[10] Respectivamente: próximo presidente dos USA do partido Republicano de direita; atual presidente da Argentina do partido de direita PRO; atual presidente empossado do partido de direita e resquício da ditadura PMDB; ex-KGB atual presidente quase vitalício da Rússia; primeiro ministro da Espanha do conservador partido PP.

Tradução CLAZ (https://claz.noblogs.org/post/2016/11/19/uma-historia-para-tratar-de-entender/)

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